Depois de tudo o que aconteceu no dia 1 de setembro de 2013, depois de ver a luz do carro vindo em minha direção, depois daquela pancada, do barulho dos vidros se quebrando, depois todas aquelas luzes vermelhas no chão, depois dos meus gritos de desespero para que encontrassem meu amigo e depois de acordar e estar no centro cirúrgico, lembro-me muito bem que depois de tudo isso, quando eu abri os olhos, estava na UTI do hospital de urgência de Sergipe ainda um pouco confusa diante de tudo que tinha acontecido sem nem sequer ter ideia do que realmente era uma UTI, sem saber quanto tempo ficaria ali, não sabia como seriam os meus dias ali e nem o que estava de fato acontecendo comigo, não imaginei que teria acontecido nada tão grave a ponto de me levar para UTI. Quando me falaram que no acidente eu tive várias fraturas e que me machuquei muito, principalmente na perna, falaram-me também que eu tinha que ficar na UTI para que eles fizessem de tudo para que eu não perdesse minha perna, foi aí que tive consciência do que estava acontecendo comigo e que o acidente não tinha sido tão simples quanto imaginei.
Foram os dois meses e meio mais longos da minha vida, dias e noites passavam e eu não os conseguia identificar, não conseguia ver o sol de dia, nem o brilho das estrelas a noite, o que eu via era uma lâmpada que estava sempre ligada e acompanhava a troca de plantão para saber se era dia ou noite. Durante o dia a melhor parte era que eu recebia visita, e a pior parte eram: os banhos, os curativos, a fisioterapia e as cirurgias, mas os banhos, os curativos e a hora da fisioterapia conseguiam ser piores que as cirurgias, porque eu sentia muita dor, chorava e gritava muito, era horrível!
Escrevi um pouco sobre como foi esse começo para que soubessem mais ou menos o que aconteceu, para falar resumidamente como foram os meus dias na UTI e para falar da equipe que me acompanhou durante o tempo em que estive lá. Essas pessoas foram como anjos enviados por Deus, lutaram por mim, brigaram, me ajudaram de todas as maneiras possíveis, mesmo estando em um hospital público onde as condições quase nunca são as melhores, sabemos que infelizmente a saúde pública do nosso país não é lá essas coisas, mas ainda existe profissional dedicado, que trabalha pelo paciente, que tem amor pelo que faz, que se entrega e que não olha só para as dificuldades. Posso dizer que senão fosse a vontade de Deus e o profissionalismo da equipe da UTI, talvez eu não tivesse com minha perna hoje.
Um dia mesmo incerta de como seria meu futuro, prometi a elas que voltaria lá andando e ano seguinte lá estava eu com as minhas muletas como visitante, cumprindo assim minha primeira promessa que eu nem imaginava na época que realmente iria cumprir, apesar de querer muito, me agarrei a promessa que fiz e me esforcei bastante para que esse dia chegasse. Nessa visita prometi que voltaria lá, mas sem as muletas, mais uma vez consegui cumprir e não sosseguei enquanto não fui lá, o meu desejo era de ver toda equipe e agradecer, mas infelizmente não deu.
Hoje consigo ver o quanto tudo valeu á pena, as dores, os choros, os gritos, as noites acordada olhando para o teto, a solidão, a saudade de casa, a vontade de não estar ali e de que tudo aquilo fosse só um pesadelo, mas com o passar do tempo fui aprendendo que nada acontece por acaso e que, às vezes, precisamos passar por algumas coisas na vida e são nos momentos de mais dificuldades que mais aprendemos.
Quero deixar registrado mais uma vez o meu agradecimento à equipe da UTI cirúrgica 01 e dizer que acredito muito no trabalho de vocês, sei que vão continuar salvando muitas vidas, mesmo em meio às dificuldades, porque foram escolhidos por Deus para isso. Desejo que continuem sendo anjos na vida de muitas pessoas e que se sintam satisfeitos e orgulhosos do seu trabalho, mesmo quando não forem devidamente reconhecidos ou recompensados, lembre-se que existem pessoas por aí que só estão vivas porque vocês existem!
